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No nevoeiro ao longe, [entries|friends|calendar]
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Sentinela. [23 Nov 2015|10:43pm]
Atento à estrada, há verdes mortos ainda a surgir na paisagem,
atento à estrada, a guinada da cabeça à esquerda,
o sangue pesado nos ouvidos e o vento nordeste;

Ligo automaticamente o vermelho ao cinzento,
ligação directa de outros passados: atento à estrada,
sei que o alcatrão é traiçoeiro, sei que a paisagem é passageira,
o sangue pesado na língua, e outras palavras no vento,

atento, atento. Livro-me de mais um embaraço, este novelo de veias
entupidas pelos tempos, a seta traiçoeira,
este vento nordeste que me guina à esquerda,
as rodas traiçoeiras, as palavras matreiras;

Atento ao semáforo, ligo assertivamente o vermelho ao verde,
páro ao escorrer. Páro ao descer por esta colina de paisagem morta,
verde pesado, sangue nas folhas por cair. Sei bem que atravessar pontes
faz tremer a vertigem. Sei bem que as cores são tons de cinza do passado.
Este novelo de ideias, atado em nós impossíveis de resolver,
e sei bem que páro ao guinar à esquerda, para fora da estrada; atento
às pequenas raízes, às pequenas folhas por nascer. O vento nordeste
ainda me sopra aos ouvidos, sussurrando: não te esqueças de quem és,
parte íntegra do que foste: atento à estrada, velho amigo,
percorre as cores nas tuas veias, bem sabes que o lume ainda te aquece
nessa eterna ebulição de ideias matreiras. Volta a alinhar os ombros,
esquerdo, direito. Volta a lançar as palavras aos livros, os livros à eterna fogueira.

O sangue pesado a escorrer no volante, a guinada.
rain on me

Moody, blue. [31 Jan 2013|10:33pm]
Enrolado no fio
do papagaio de papel,
flutuo junto ao céu
com medo de cair ao chão.

Enrolado no fio
do meu coração de papel,
flutuo junto a ti
com medo de cair ao

chão que nos leve,
chão que nos escorra,
chão que nos carregue,
chão em que
passeio, partido, os cacos
de cimento quadriculado,

enrolado no fio
de papel do meu azul
céu em que flutuam
os meus medos de cair;

enrolado no coração
dos meus papéis esfiados,
flutuando nas palavras
que tenho medo de dizer.

Ao chão atiro a primeira
pedra do que há-de vir,
e eu todo sou uma pedra:
caco de cimento, passeio
partido, quadriculado,
numerado, à espera
do fio se partir.
rain on me

As janelas fechadas estão só por abrir. [29 Jan 2013|08:41pm]


Procurei
dentro do bolso de dentro
do casaco
uma palavra a deitar;
deitava-se
sobre mim.
Procurei
dentro do bolso
do coração
uma frase a formar;
formava-se
sobre mim.

Sussurrei
para dentro das casas
o meu medo;
deitavam-se
sem pensar em mim,
sem pensar assim,
sem saber de mim,
sem querer,
deitei-me dentro das casas
procurei saber de mim,
sem saber, assim,
o meu medo
deitou-se sem mim.

Falei mais alto
que as vozes
dentro da cabeça:
todas elas
sabiam o que dizer;
eu nem sabia
o que querer.

Falei para dentro,
fala-me de coisas cá dentro,
fala-me do que sei de dentro,
fala-me;
todas as coisas sabem
falar, mas o meu medo
só sabe de mim.

Procurei
as chaves na mão
para fechar a porta
da artéria maior
por onde jorra
tudo o que sinto;
achei
as chaves no chão.
Achei que o meu medo
não tinha razão.

Deitei-me com a cabeça
sobre as pessoas que não sabem
de mim.
Acordei com o pensamento
nas coisas que sei:
talvez não saiba eu de ninguém.

Partilho o caminho com os meus passos,
talvez assim não esteja sozinho.
rain on me

El desierto. [29 Jan 2013|08:39pm]
Tenho as covas das mãos
a prender os nós desatados;
à procura de uma silhueta que nos
una;
à procura duma miragem que nos
prenda,
tenho as covas das mãos
cheias de areia do deserto
que me escorre pelo chão
e se torna um, dentro e fora de mim.

Tenho as linhas das mãos
presas a um destino; procuro
atar os meus nós. A silhueta que pinto
na parede: sou só
uma.
A miragem que procuro
no espelho: estamos a isto
presos,
tenho as linhas nas mãos
e faço nós de nós; escorre-me
esta vontade pelo chão
e torna-se palavra, dentro e fora
disto tudo.
rain on me

Os caminhos sinuosos do meu pendente final. [11 Jan 2013|05:24pm]
Do alto da montanha vejo-me
a verter, feito rio, lá em baixo;
sei
que o mundo é a paisagem que me preenche
e a minha falha é a dor que me atormenta,
a falha central desta cordilheira;
tão baixa. Sou da altura de uma porta
de uma casa pequena. Crua, nua:
estou despido de móveis. Estou,
paredes caiadas, sem saber como pendurar
o quadro: mais torto, ou ainda mais.

Tenho
que te dizer
das minhas viagens
pelas ruas centrais do subúrbio
à procura da decadência,
da dor das casas, das janelas
que partiram sem me verem passar.
Tenho de te dizer
das caixas de correio atulhadas
dos meus rascunhos; sempre elas,
sempre tu sem mim.

Meu
deus.
As flores sem o teu nome
que murcham nesses jardins. Elas morrem
sem te ver. Elas morrem. À minha frente.
Sem eu nada poder fazer.
Meu deus, os muros aborrecidos
que dizem tanto às minhas passadas;
que as forçam por tantos caminhos. Procuro-os,
e, por vezes, nem os encontro.
Tenho de te dizer: tenho de te ver
porque te procuro em tudo o que me verte
montanha abaixo. E sem saber, sei-o.
Sem querer saber, não sei esquecer.
As flores murcham o teu nome
dentro de mim. Morrem sempre que te vêm
sem estares à minha frente. E eu tanto podia fazer,
eu tanto podia dizer. Mas eu,
eu aborrecido, eu atulhado de rascunhos de mim;
a caixa de correio da minha alma,
a decadência das minhas vidraças estilhaçadas
pelo chão da casa de paredes caiadas,
o teu retrato pendurado nas paredes,
todo ele num suicídio latente sobre o meu chão,
a minha cordilheira central; o peso que carrego as costas:
o teu nome na minha boca, impenetrável,
toda ela uma porta, fechada. Sem chave. Sem falta dela.

Caminho sobre a estrada para o sanatório
no meu pensar: eu sei-o lá, à minha espera;
abandono-me nele, sem nunca lá ir. Aquelas escadas
sem luz, para lado nenhum, eram eu.
Nunca me irei esquecer.
rain on me

Augusta. [27 Nov 2012|07:49pm]
Na subida ao Bom Jesus
perdemos os sapatos
com os pés ainda lá dentro;
meu amigo, dói-me o
existir, a cabeça e as costas.

No terceiro degrau comecei a notar
uma saliência nos pulmões: onde estava
a faltar a mão que me agarrou o peito
e me puxou para fora deste mundo,
para o querer mais que o universo
e todo o universo perdido em mim.

Meu amigo, dói-me a frase. Dói-me o verso.
Recuso as rimas. Recuso o sentir.
Recuso-me a subir. Fico por aqui.
Na trigésima escada apeteceu-me o chão.
Na trigésima-quinta apeteceu-me o não.
Na quadragésima perdi a noção:
ainda aqui estamos? Ainda não saí
desta ideia? Que maçada. Perdoa-me,
oh Deus saturado. Deus de mãos atadas.
Também eu, meu amigo, ato as mãos;
também eu, minha solidão, ato os cordões
e perco-me nas ruas entre as catedrais;
também eu espero o autocarro
sem saber sequer para onde ele vai.

Mais um Novembro sem sentido;
toda a existência marcada num mês
a passar por todos os anos; estou cansado.
Localizem-me num mapa: você está aqui.
Não sei onde queria estar.

Tenho o quarto da paciência cheio
de memórias espalhadas pelos cantos
e durmo por cima delas, permanente dor.
Tenho as madeiras podres; humidade salgada
dos meus olhos. Já me esqueci de chorar
por chorar de vontades demais.
Tenho a porta entre-aberta à espera:
tenho o corpo à escuta. Não sei o que chega.
Não sei se chegará. Não sei se me chega.
Não sei a cor da capa deste livro.
Não sei o tamanho das suas folhas.
Tenho o quarto da paciência lotado:
memórias de estar sempre a esperar
ter de esperar por esperar outra vez.

Quando desci os degraus encontrei
um trevo ao sol: tinha três folhas como eu.
Quando te esqueceres de olhar para mim,
amigo que vejo à distância: lembra-te
de olhar por mim.
Eu já não o sei fazer.
rain on me

Preencho os meus dias escrevendo o que me vai dentro do peito; [14 Nov 2012|02:30am]
(esvazio o peito escrevendo sobre o que se eleva além dos meus dias.)

As palavras
que me enchem o peito
esvaziam-me o sentir;
são delas todo o vazio
e o vazio a elas pertence.
As frases
que me enchem os livros
moldam-me sensibilidades;
são delas que tiro o sentido
e o sentido sou eu que lhes dou.
São frases partidas a meio
ou ditas em todo o inteiro:
são contos de histórias de outrora,
são histórias que faltam contar.

E o amor,
a solidão, o desespero, a paixão,
a tontura, o cair, o sentir, a felicidade
são entradas do dicionário
que é ser; mais um dia: e ser, e o dia,
e outras tantas que ainda não aprendi.

As palavras enchem-me o peito
e esvazio o que tenho a dizer:
as frases que completo,
de mim o seu todo pertencem.
Sinto, mais uma vez, o ciúme
de não saber dizê-las tão belas
como o outro que escreve
em seu livro no mesmo tom;
mas escrevo, neste caderno,
a minha história em tons azulados
e espero que quem a ler
se deite, enfim, nesta bela história
sobre o querer ser lido
e o escrever para o ser.
rain on me

Outra vez. [09 Oct 2012|05:51am]
Outra vez aqui sentados
num banco junto à praia.

Haja juízo, haja
bom-senso nestas mãos.
Tomara que fossem outras,
estas mãos. Tomara que agarrassem
com força, estas mãos
guardadas nos bolsos.

Uma vez deitados
nesta praia feita areia,

haja como tirar as palavras
da boca, haja como tomar
como ditas estas outras;
sempre tanto por contar
nestas frases por acabar.

Outra vez. Não sei o tempo
que perdi a pensar nesta.
Não sei o tempo que me restou
depois da última. Guarda para ti
todas as vezes que não te disse
que te queria agarrar com força,

nunca o consegui fazer;
nunca foi tempo de tentar.

E nos quartos, fechados,
deitamo-nos a dormir e sonhamos
com as vezes que poderiamos ter sido;
outra vez, uma vez. Outra vez.
rain on me

Ninguém espera por nós. [02 Oct 2012|02:09am]
Já ninguém comenta:
o céu está azul, esta noite.
Já ninguém repara:
o amor acontece, este momento.

O assombro das coisas passa por nós
como um comboio sem partida nem chegada.
Oh, estação infinita... Estamos todos parados
e esperamos, sei lá, o que chega ao longe...

Oh, cais sem número. Não caias para a linha,
pequena. Segura-te nas minhas mãos
ou noutras quaisquer. Não sei o que esperas;
nem eu sei o que chegará. Reparo: o céu
está azul esta noite. Chega sem repararmos.
Não é esta a nossa partida; não foi esta a chegada.
Sempre cá estivemos.

Já ninguém sabe:
o amor é azul, certas noites;
já ninguém diz:
o céu acontece. Tem de ser.

E passamos assombrados pelo cais;
damos-lhe um número, damos-lhe cor.
Chegamos nós, e partimos. Ninguém dá conta
de quem não se segura, a um passo da linha.
É infinito o desespero. Estamos parados
sem relógio, sem bilhete. Sem saber sequer onde ir.
Não te segures, pequena. Leva-me antes contigo.
O céu estava bonito, nessa noite. O amor aconteceu.
Tantas vezes não se dá conta.
rain on me

Revisitemos juntos a solidão. [02 Oct 2012|01:32am]
O mundo é um sítio escuro
sem alma, sem voz.
Estamos parados junto à água.
Estamos parados dentro dela.
O mundo é um sítio estranho
sem cores, sem luz.
Estamos parados na praia
e o mar é tão grande. É tudo o que temos.
Entrar dentro dele é deixar de sentir.
Ficar fora dele é deixar de acreditar.
O mundo é tão grande, e nós tão pequenos.
O céu é tão curvo. E nós, tão direitos.
Tão altos. E não lhe conseguimos tocar.
Somos tão grandes dentro de nós
mas temos sempre de respirar.

O mundo é cheio. É doce. É enorme.
Não sei nada fora desta cidade
e sei tudo daqui ao infinito.
De que me serve este espaço
se não tenho como o preencher?
De que me servem as palavras
se não tiver mais nada a dizer?

O mundo; apaga a luz. Deita-te aqui.
Faz de conta que é contínuo, o teu
e o meu. É tudo escuro, é tudo claro;
não importa. Sem voz ou com a magia
da música. Sem rosto ou com o olhar
parado em ti. Parados em nós já estamos.
Estamos parados na água: mergulhemos;
Tanto faz. Ter alma, não ter. Ter tudo,
não ter nada. A absoluta solidão já a sabemos:
está cá dentro. Dói sempre. Não faz mal.

O céu estrelado às vezes cai com mais força;
certas noites sinto o peito pesado. O sangue
espesso, duro; Será a vida mais do que isto?
Só isto? Menos ainda? Estou cansado.
Deita-te ao meu lado. Deita-te ao meu lado.
rain on me

Desalinho. [02 Oct 2012|01:13am]
Se puser a mão no peito
sinto o lado esquerdo
mais vivo que o direito.

Se estender o braço esquerdo
chego tão longe quando o direito.
Chega tão longe o tempo
de sentir o todo vivo;
E o todo é tanta coisa
e tão pouco consigo ser.

Se estender o peito todo
consigo ouvir-me a sentir
este assombro de estar vivo.
rain on me

Às voltas com a cabeça nas paredes. [02 Oct 2012|01:06am]
Respirar é instantâneo;
o bater do coração
para que serve?

Há horas que penso
que o respirar é inevitável
e o bater do coração
é um tormento.

O coração é instântaneo;
respirar
para que serve?

Há horas que evito
bater o coração;
respirar
é um tormento.

O último sopro
sabe tão bem
como o primeiro
sopro sabe tão bem
como deixar de evitar
o coração respirar.
rain on me

Next stop. [02 Oct 2012|12:26am]
This is the path, they said,
and they were right, and they were ever
so wrong.
This is the path, I followed;
and the life I met was ever so sweet
and so bitter. And so hard, and so dull.

This is the path. We have to take it.
We have to walk. But it is so hard to wake up
everyday. It is so hard to measure the distance
from ourselves to what we want,
much less walk it. Much less want to.

Everything I learned was wrong.
Everything I thought normal was not.
Everything I tried to create was meaningless.
Every moment of my life is a fraud.

This is the moment, they say: we have to live.
Now. Take the chance. Go head first.
And they are wrong, and they know it. But who really cares?
But who really lives by the rule?
Who makes it? Who really means when they say it?

This is the past. This is what doesn't matter.
This is the present. This is what doesn't matter.
This is the future. And it will be hard. Unpredictable.
Long. And we will suffer. And we will fall. We will get up again.
And fall again.

I have been the shadow everyone knows
but doesn't dare talk about. I have been
death at next minute. And no one really cares.
I have been at the edge of the window. I took the leap.
I failed. And I have been the hopeless case, the lost mind.
I did not find the cure.

Great have been some men that had the opportunity,
huge have been the men who took the step. I have been neither.
I haven't met anyone that was. So why do I feel small?
Why do I feel lonely? Why am I always looking down the edge?

This is the path, they say; the fools that know nothing.
The ones that didn't suffer. The ones that never could.

It's a small room. It's full of memories. It's empty of meaning.
It's a cold sweat everytime we think about it.
Nothing good ever comes of saying what you mean
if no one wants to know the truth.
rain on me

Passagem. [19 Aug 2012|05:06pm]
Por entre os veículos
tropeço nos versículos
de outra passagem
para o outro cais:

tomo por completo, o círculo
da vertigem que me consome;
todo o céu da mesma cor
e o sorriso pregado na minha cara.
Parvoíce; tolice; pegada em mim.
Tropeço noutra palavra,
noutra chávena de café. Noutra passagem
dobro o livro em dois. Nada me diz
nada.

Por entre as carruagens,
para trás e para a frente. Sem destino
nem esperança dele. De sorriso nas gaivotas
que pintam o céu de branco. Outra cor
além da minha. Que bom, o sol. Que bom,
esta vertigem. Cair no chão
sem ter de me estender nele.

Tomo por completo o círculo:
saio ao pé de casa. Sento-me na cadeira
deixando o tempo passar. Tudo passa.
A cicatriz fechou: o círculo completou-se.
Tenho um sorriso tolo na cara, nesta casa,
nesta chávena, neste caminho.
Tudo passa, mas o sol há-de ficar:
as gaivotas chamam-no, e eu
preciso dele para passar.

São só mais cinco minutos até à estação
- sei lá onde. Tanto faz. O relógio
andará para trás, se ele quiser. Completo
a volta aos pulsos: parei de sangrar
quando o sol começou a brilhar.

Tenho uma tolice no sorriso,
espero
não ter de passar.
rain on me

Interruptor. [25 Jul 2012|09:39pm]
Soltam-se as peças uma de cada vez:
as roldanas, o coração, as pestanas,
as mãos, o sentir,

o sentir.
Soltam-se as peças dentro de cada vez,
o sombrio, distante, silvo do que fomos.

Não me encontro dentro do baú dos tempos,
debaixo dos lençóis molhados de choro,
debaixo dos papéis rabiscados de sonho.

O importante não é ser,
o importante é como nós somos;
o que importa não são as palavras,
o que importa é aquilo que elas nos dizem:

tenho tão pouco para dizer.
E dentro de mim, todos os universos se esforçam
por serem eles os escolhidos para o próximo acordar;
dentro de mim, as colisões sucedem-se, sem sentido,
sem palavra, sem desejo, sem
preencher um vazio que seja.

O importante é esquecer.
rain on me

Fins de tarde no castelo. [25 Jul 2012|09:00pm]
Todos os fins de tarde são
inevitavelmente
fins.
Todos os fins de tarde são
inevitavelmente
amarelo a tornar-se cinza;

meu deus, o azul brutal
que me faz sono.

Todos os fins de tarde são sonoros
dentro da sua desesperança: o
inevitável amanhã. Não.

Já me chega de pensar.

Todos os fins que eu penso
são de um azul brutal. O sono
de Deus a cair sobre nós.
Ninguém merece ser

Eu, que tantas vezes apreciei
caminhar sobre as pedras descalço
numa praia qualquer, sem saber que
os fins de tarde eram eu.
Os fins de tarde, todos, em mim,
toda a cinza inperturbável, a calar-se
ao fim da tarde sonora. A fuga para o quarto,

o sono de todos os homens.

E no meu colo deito as mãos
pensando em mais um fim.

Um pensamento veloz
despedaça-me
todos os fins de tarde.

A conclusão de tudo
cai tão rápido como o sol.

Inevitavelmente tudo é veloz.
Inevitavelmente, caio sobre as pedras
e morro vezes sem fim.
rain on me

Desesperanças de um auto-encontro. [25 Jul 2012|08:53pm]
Ao som de mais uns rapazes
despenteados
penso no que me aconteceu
ao amor às coisas.

Irmã, que me vives por dentro,
sei que me deixaste cortar-te o cabelo;
peço-te mais uma vez a inspiração
da tua transpiração por este mundo
que gira mais que nós:

irmã, sei que me enches os vazios,
mas que é feito da minha vontade?
Que é feito da torre feita água
que transbordava todas as manhãs?


A minha resposta nula,
o meu mundo vazio,
o meu despedaçar no chão,
o meu mundo tranquilo

sem nada nem ninguém.
Sem nada nem medo de não ser ninguém.

E repito-me. De que me vale repetir-me?
E repito: de que me vale repetir?
Este vazio inunda-me mais que o amor.
Este vazio inunda todo o calor
de um abraço desajeitado, de um coração
despedaçado. Este vazio é a minha resposta
ao nulo. Este vazio é o infinito ser, sempre
ser neste mundo.

Por muito que as nuvens chovam,
eu chovo mais que elas.
Por muito que o sol brilhe,
eu estou inundado de transparência,

ao som de mais uns rapazes despenteados,
procuro saber como ordenar tudo o que sou.


Irmã, que nos aconteceu?
Irmã, onde é que nos perdemos um do outro?
Irmã,

escreve por mim estas linhas, que eu deixo-te
as mãos no meu conforto, paradas no espaço e no tempo.
Irmã, escreve-me o dia que vem, porque da noite estou cansado.

A resposta vem-me pelo coração:
há que seguir com os olhos na estrada,
há que prosseguir sem pensar nas outras quedas
e nas quedas falhadas de outras janelas,

há que continuar apesar dos desamores, apesar das outras histórias
em que não fomos nós a falhar, mas sentimos que podíamos ter sido.

Faz hoje um ano, ontem dois, amanhã três, e as datas não importam,
nem se importam. Não me importo de não me esquecer, mas esqueço-me
de não me importar.

Não me atirem mais cordas, porque não quero subir;
não me atirem mais água, porque não quero afundar,
não me atirem mais rosas, porque a morte delas implica o sofrer
de todas as gerações de mim. E as árvores continuam-me a crescer
e fazem-me raízes no corpo. Quebram-me as costas em partes,
choram-me os olhos do pólen,


Irmã, não escrevas mais, que sofrer não vale a pena.
Não me digas mais, que mais vale estar calado,
estas palavras são tão pouco para tudo o que eu queria ser.

Está quase no fim
este início de tudo.
Custa tanto
ter de ser.
rain on me

Bel amour. [23 Jul 2012|10:10am]
Um pequeno pássaro voa de asas abertas
dentro do meu peito:
não sabe nada de mim
como eu não sei nada dele;
ainda assim passeamos juntos
junto ao rio à noite, sem sombra nem ninguém.

Um pequeno pássaro voa, asas abertas;
foge-me da mão, à procura da tua.
Nunca tive o peito tão vazio
como quando afogaste a saudade de mim
(nem sombras, nem ninguém sabe de ti.)

Um pequeno pássaro voa, bem alto
do topo do céu amarelado canta o nome
que eu guardo na boca fechada. Não o sei dizer
sem partir as asas, dentro e fora do peito;
ainda assim passeio sem ti, junto à noite
sem saber como adormecer-me.

Um pequeno pássaro dorme no meu ombro
com as asas cansadas de te procurar.
Não o chamo, por não saber o seu nome,
mas sei que o sabes. Sei que sabes
como se chama sentir-me assim.
rain on me

Já houve sabor, mais. [20 Jul 2012|02:03pm]
Sabe-se que a vida passa
mesmo sentado no mesmo lugar;
o tempo avança, trespassa,

o cinzeiro enche, a alma desfia-se,

longe de nós estão as
manhãs ensolaradas e as
árvores que recortam os raios de sol,

o cinzeiro preenche-se, a alma,
essa, passa o tempo que passa
sem se saber trespassada
ou sentada no mesmo lugar.

Sabe-se que a vida passa,

sempre que o sol se recortar
vou olhar para cima e pensar
no fumo que desfia a minha alma,
no cinzeiro cheio que se esquece de mim
na sala, sentado, no mesmo lugar.
rain on me

E o vento lá fora. [20 Apr 2012|06:32pm]
Vamos à volta,
porque pelo meio estou preso
a todas as trepadeiras que lamentam
trepar o meu corpo, decerto
teriam algo melhor para fazer.

Vamos à volta, querida,
porque pelo meio há outras tantas coisas
que vou lamentando, como se trespassar
estas paredes fosse algo que
não me apetece fazer.

E vamos à volta, decerto
encontraremos algo pelo caminho,
porque neste lamaçal só crescem trepadeiras;
e seja, seja assim. Já chega de lamentos, vamos
à volta, voltar ao mesmo.

Cinquenta vezes cinquenta, o meu corpo
já nem consegue lamentar não saber contar
as vezes que me perco em lamentar
as voltas que não dei. Vou trepar
fora disto.
rain on me

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